Chamada para artigos, resenhas e entrevistas de temática livre fluxo contínuo.

2020-09-28

Chamada para artigos, resenhas e entrevistas de temática livre fluxo contínuo.

Próximos dossiês com chamadas de trabalhos abertas:

 

• Número 33

Fat Fashion: Perspectivas Interculturais. Organização: Aliana Barbosa Aires (UFPI) e Lauren Downing Peters (Columbia College Chicago). 

Prazo para envio de artigos: 15 março de 2021 - Previsão de publicação: dezembro de 2021.

FAT FASHION: PERSPECTIVAS INTERCULTURAIS

Em seu livro Fat: A Cultural History of the Stuff of Life, Christopher E. Forth observa que existe uma “divisão geográfica entre o Ocidente e 'o resto'” quando se pensa em corpo gordo, o que perpetua “algumas suposições amplamente compartilhadas”na literatura acadêmica (2019, p. 8). Enquanto a “obesidade” é muito criticada como uma praga do capitalismo tardio que afeta desproporcionalmente a sociedade ocidental e, em particular a norte-americana, as culturas consideradas não ocidentais são frequentemente congeladas em um passado mítico no qual a gordura é venerada como um símbolo de saúde, riqueza e fertilidade. Essa perspectiva é sublinhada pela presunção de que o estigma da gordura é um fenômeno distintamente moderno, nascido da revolução industrial, da produção manufaturada em massa e da cultura de consumo. Tais premissas criaram uma dicotomia na qual a gordura é enquadrada como um "problema" que precisa ser investigado nos contextos ocidentais, enquanto é subexaminada além da estrutura ocidental.

A história, a cultura e a teoria a respeito do corpo gordo foram investigadas em grande profundidade nos Estados Unidos, onde o campo interdisciplinar conhecido como Fat Studies ganhou força ao longo da última década, influenciando o trabalho em campos de estudo adjacentes. No campo dos Fashion Studies, o crescente interesse acadêmico pelo corpo gordo se manifestou em um pequeno corpo de pesquisa interdisciplinar que examina a história, a teoria e a prática da moda "plus size" ou “Fat Fashion”, focado em geral na experiência norte-americana (e, em menor grau, britânica e canadense). Os estudiosos que trabalham no campo dos Fashion Studies e de disciplinas afins examinaram revistas e blogs de moda que defendem a positividade corporal em relação ao tamanho grande, a história inicial da indústria de vestuário para tamanhos grandes, a representação de corpos gordos na mídia de moda e a experiência de compra do consumidor gordo, entre outros tópicos enraizados na mídia ocidental, como arquivos e históricos de marcas. Embora este importante trabalho preencha uma lacuna na literatura da moda, que há muito tempo marginaliza os corpos de "Outros", também perpetua a ideia incorreta de que a moda é uma construção distintamente ocidental.

Embora o conceito de "ocidental" e "não ocidental" seja controverso e um tema constante de debate acadêmico, aqui entendemos os países "ocidentais" como aqueles que estiveram no centro dos estudos sobre moda e corpo gordo, como os Estados Unidos Estados, Canadá, Europa e Reino Unido, enquanto o que chamamos de países “não ocidentais” são as regiões que foram marginalizadas ou “esquecidas” na literatura de moda internacional - especialmente a América Latina, Ásia e África. Ao expandir e descentralizar a pesquisa sobre Fat Fashion além da estrutura ocidental, convidamos os colaboradores a explorar a moda para corpos gordos nos contextos global e local - considerando como ideias sobre beleza, corpo e moda mudam através de fronteiras culturais, evoluem no tempo e afetam diferentes grupos de maneiras distintas.

Os tópicos a serem explorados incluem:

• Blogueiros e influenciadores de moda;

• As histórias de marcas de moda de tamanho grande não ocidentais;

• Aspectos históricos do uso e produção de roupas em tamanho grande em diferentes contextos culturais nos séculos XVIII, XIX e XX;

• Design ergonômico para corpos gordos e novas técnicas (modelagem de moda, moulage, etc.) para produzir tamanhos grandes;

• Principais desafios e problemas a serem superados na indústria global de Fat Fashion;

• Revistas de moda especializadas no público gordo em países não ocidentais;

• O desenvolvimento de grades de numeração ou padrões de tamanho de roupas em diversas culturas;

• Necessidades, experiências e engajamento do consumidor gordo no mercado de moda;

• Experiência de compra no varejo em lojas físicas e espaços online especializados no mercado plus size;

• Novas proposições, práticas e metodologias de Design para uma educação de moda inclusiva no que diz respeito ao tamanho;

• Estigma em relação ao corpo gordo e práticas de moda para tamanho grande em diferentes contextos culturais: limites, diferenças e semelhanças;

• Perspectivas que consideram corpos gordos na literatura acadêmica de moda e de moda na literatura acadêmica de estudos sobre o corpo gordo;

• A marginalização do corpo fora do padrão dominante no jornalismo e curadoria de moda;

• Análise da produção publicitária de moda plus size, especialmente comparações entre abordagens ocidentais e não ocidentais;

• Ativismo gordo na moda online e offline, incluindo perspectivas globais e locais;

• Representações culturais e discursos sobre corpo gordo na moda veiculados pelo circuito midiático mainstream;

• O mercado de modelos de tamanho grande no mundo, incluindo padrões corporais, definição e classificação de corpos e estéticas;

• Padrões de beleza no que diz respeito ao tamanho corporal em contextos culturais distintos;

• Tamanho grande e gênero, especialmente diferenças na maneira como os corpos gordos masculinos e femininos se vestem nas culturas ocidentais e não ocidentais;

• E estudos que exploram as interrelações gordura, classe e raça.

Referências Bibliográficas

Forth, Cristopher E. Fat: A Cultural History of the Stuff of Life. London: Reaktion Books, 2019.

FAT FASHION: CROSS-CULTURAL PERSPECTIVES

In his book, Fat: A Cultural History of the Stuff of Life, Christopher E. Forth observes that there exists a “geographic division between the West and ‘the Rest’” when thinking about fat, which perpetuates “some broadly shared assumptions” in the scholarly literature (2019, p. 8). While “obesity” is much maligned as a plague of late-Capitalism that disproportionately affects Western, and particularly American society, non-Western cultures are often frozen in a mythic past in which fat is venerated as a symbol of health, wealth and fertility. This perspective is underscored by the presumption that fat stigma is a distinctly modern phenomenon, born out of the industrial revolution, mass manufacturing and consumer culture. Such assumptions have set up a dichotomy in which fat is framed as a “problem” in need of investigating within Western contexts, while it goes under-examined beyond the Western frame.

The history, culture and theory of fat have been studied in great depth in the United States, where the interdisciplinary field of fat studies has gained traction over the last decade—influencing work in adjacent fields of study. Within the field of fashion studies, the growing scholarly interest in the fat body has manifested in a small body of interdisciplinary research that examines the history, theory and practice of fat or “plus-size” fashion, which centers by-and-large on the American (and to a lesser extent, British and Canadian) experience. Scholars working within the field of fashion studies and its sister disciplines have examined fat positive fashion magazines and blogs, the early history of the large-size garment industry, the representation of fat bodies in the fashion media and the experience of shopping while fat, among other topics rooted in Western media, archives, brand histories and retail spaces. While this important work fills a gap in the fashion literature, which has long marginalized “Other” bodies, it also perpetuates the incorrect idea that fashion is a distinctly Western construct.

Although the concept of “Western” and “non-Western” is contentious and the topic of scholarly debate, here, “Western” countries are understood as those that have been at the center of fashion studies and fat studies scholarship, such as the United States, Canada, Europe and the United Kingdom, while the “non-West” includes countries and regions that have been marginalized or forgotten within the published fashion literature—especially Latin America, Asia and Africa. In expanding and de-centering the research on fat fashion beyond the Western frame, we invite contributors to explore fat fashion (broadly defined) within global and local contexts—considering how the ideas about beauty, embodiment and fashionability shift across cultural boundaries, evolve over time and affect different groups in different ways.

Topics to be explored include:

  • Fat fashion bloggers and influencers
  • The histories of non-Western, plus- or large-size fashion brands
  • Historical aspects of the uses and production of large-size clothing in different cultural

contexts in the 18th, 19th and 20th centuries;

  • Ergonomic design for fat bodies and new techniques (fashion draping, patternmaking,

etc.) used to produce large-sizes

  • Challenges and problems to overcome in the globalized fat fashion industry
  • The development of clothing size standards across cultures
  • Large-size consumer needs, experience and engagement in the fashion market
  • Retail shopping experiences in physical stores and online spaces specializing in the plus-size market
  • The collection and display of large-size dress in fashion museums, university study collections and private archives
  • New design insights, practices and methodologies for a size inclusive fashion education
  • Fat stigma and how it affects fashion and dress practices in different cultural contexts: boundaries, differences and similarities
  • Perspectives that consider fat bodies in the fashion literature and of fashion in the fat

studies literature

  • The marginalization of the non-standard body in fashion writing and curating
  • Plus size fashion advertising analyses, especially comparisons between Western and

non-Western approaches

  • Fat activism in fashion online and offline, including global and local perspectives
  • Cultural representations and discourses of the dressed fat body in mainstream media
  • Plus-size models around the globe, including body standards, definition and classification
  • Beauty standards with regard to size across distinct cultural contexts
  • Large-sizes and gender, especially differences in how male and female fat bodies are

dressed in Western and non-Western cultures

  • And studies that explore the intersections of fatness, class and race.

References

Forth, Cristopher E. Fat: A Cultural History of the Stuff of Life. London: Reaktion Books, 2019.

• Número 34:  

Moda, do-it-yourself e culturas globais digitais/Fashion, do-it-yourself and global digital cultures. Organização: Maria Claudia Bonadio (UFJF) e Paula Guerra (Universidade do Porto)

Prazo para envio de artigos: 30 de julho de 2021 - Previsão de publicação: abril de 2022.

MODA, DO-IT-YOURSELF E CULTURAS GLOBAIS DIGITAIS

A partir de meados da década de 1970, a noção de cultura do-it-yourself (DIY) progrediu de um ethos de resistência à indústria da música mainstream, centrado no punk, para uma estética mais amplamente endossada que sustenta uma ampla esfera de produção cultural alternativa (Bennett, 2018; Guerra, 2017). Embora não evitando preocupações contra-hegemónicas, esta transformação do DIY no que razoavelmente se poderia chamar uma "cultura alternativa" global também o viu evoluir para um nível de profissionalismo que visa assegurar a sustentabilidade cultural e, sempre que possível, económica. A neste ensejo, a moda prefigura-se como um domínio artístico crucial de abordagem da cultura contemporânea.

Vejamos a história: o contacto inicial com o punk efetuava-se, grosso modo, através das bandas e dos média musicais. Com isto emergiu uma indumentária, que dependia de um saber-fazer DIY, bem como de compras nas poucas lojas de roupa disponíveis e de encomendas por correio. Assim, em locais de pequena dimensão, o fluxo de informações sobre moda dependia de um conjunto de espaços, como bares e discotecas. Os jovens iam ver bandas punk e isso fornecia-lhes um padrão que podiam imitar. Outra fonte de informação eram revistas, em que era possível, primeiro, encontrar fotos de punks e retirar daí ideias e influências; segundo, nestas revistas existia publicidade a roupa e acessórios punk (Cartledge, 1999). Tudo isto fazia com que a moda punk local crescesse e se modificasse. Mas sempre ligada com um sistema cultural mais amplo. Cartledge (1999) postulou cinco fases da moda punk: em 1975, experimentava-se um estilo pré-punk, influenciado por David Bowie e Roxy Music, e por experimentações DIY; entre 1975-1978, o foco orientou-se para um estilo exclusivo de Londres e de lojas como a Sex e Seditionaries; entre 1976-1979, emergiu um estilo dark urbano que coexistiu com o anterior, baseado em experimentações e alterações DIY, como sandálias de plástico, t-shirts feitas em casa com slogans ou nomes de bandas, roupa militar, etc.; de 1979 em diante, na indumentária punk mais conhecida, em parte derivada da indumentária rock, assume proeminência o casaco de cabedal, Dr Martens e calças bondage, entre outras coisas; de 1980 em diante, praticamente a mesma coisa que o ponto anterior, apenas com moicanos cada vez mais exagerados, piercings e modificações corporais mais extremas, bem como um estilo mais marcado por doutrinas políticas.

Durante precisamente os anos 1980, a desindustrialização no Norte Global contribuiu ainda mais para a prevalência de discursos DIY na música, nas práticas culturais e estilísticas associadas num sentido global mais amplo. Da mesma forma, a facilidade com que os jovens, e na verdade as gerações posteriores, podem ver a moda e outras práticas criativas como ocupações viáveis também evoluiu globalmente, muitas vezes em conjunto com um código de política e prática cultural DIY fortemente articulado. Esta evolução da cultura DIY num sentido global mais amplo é extremamente significativa, sobretudo devido à demonstração do DIY como uma linguagem de ação e intenção mais comummente adotada por um conjunto cada vez mais amplo de produtores culturais e seus públicos (Bennett & Guerra, 2019).

Outrora utilizado como meio de denotar bolsas de resistência às formas tradicionais de música e à produção cultural, o DIY tornou-se agora sinónimo de um ethos mais amplo de política de estilo de vida que une as pessoas em redes de produção cultural alternativa e translocal. No mesmo período, a rápida emergência da tecnologia digital criativa, embora não democratizando o processo de produção cultural num sentido universal, dadas as implicações de custo envolvidas na aquisição dessa tecnologia para uso pessoal, tornou mais fácil para um número crescente de pessoas - incluindo jovens - obter os meios para criar e divulgar os seus próprios produtos culturais, nomeadamente moda. Como isto sugere, o efeito combinado de tais mudanças socioeconómicas e tecnológicas tem ramificações significativas na posição e estatuto do DIY como discurso cultural e prática cultural na era pós-industrial. Artigos, entrevistas e resenhas que tratem das temáticas acima mencionadas serão bem-vindos. Estão todos/as convidados/as a participar.

 

Referências Bibliográficas

Bennett, A.; Guerra, P. (2019). Underground Music Scenes and DIY Cultures. Oxford: Routledge.

Bennett, A. (2018). Conceptualising the relationship between youth, music and DIY careers: A critical overview. Cultural Sociology, doi:10.1177/1749975517750760.

Cartledge, Frank. Distress to Impress? Local Punk Fashion and Commodity Exchange. Roger, Sabin (Ed.). Punk Rock: So What? The Cultural Legacy of Punk (pp. 143–154). Londres: Routledge, 1999.

Guerra, P. (2017). Just can’t go to sleep: DIY cultures and alternative economies from the perspective of social theory. Portuguese Journal of Social Science, 16(3): 283–303.

 

FASHION, DO-IT-YOURSELF AND GLOBAL DIGITAL CULTURES

From the mid-1970s, the notion of do-it-yourself (DIY) culture has progressed from an ethos of resistance to the mainstream music industry, centered on punk, to a more widely endorsed aesthetic that supports a broad sphere of alternative cultural production (Bennett, 2018; Guerra, 2017). While not avoiding counter-hegemonic concerns, this transformation of DIY into what could reasonably be called a global "alternative culture" has also seen it evolve into a level of professionalism aimed at ensuring cultural and, where possible, economic sustainability. At this juncture, fashion prevails as a crucial artistic field of approach to contemporary culture.

Let's look at the story: the initial contact with punk was made, roughly, through the bands and the musical media. With this emerged an outfit, which depended on DIY know-how, as well as shopping in the few clothing stores available and mail order. Thus, in small places, the flow of fashion information depended on a set of spaces, such as bars and discos. Young people would go to see punk bands and this provided them with a pattern they could imitate. Another source of information were magazines, where it was possible, first, to find pictures of punks and draw from them ideas and influences; second, in these magazines there was advertising for punk clothing and accessories (Cartledge, 1999). All this made the local punk fashion grow and change. But always connected with a wider cultural system. Cartledge (1999) postulated five phases of punk fashion: In 1975, a pre-punk style was experimented, influenced by David Bowie and Roxy Music, and by DIY experimentations; between 1975-1978, the focus was on a style exclusive to London and stores such as Sex and Seditionaries; between 1976-1979, a dark urban style emerged that coexisted with the previous one, based on experimentations and DIY changes, such as plastic sandals, homemade t-shirts with slogans or band names, military clothing, etc. From 1979 onwards, in the best known punk outfit, partly derived from the rock outfit, the leather jacket, Dr Martens and bondage pants, among other things, assumed prominence; from 1980 onwards, practically the same thing as the previous point, only with more and more exaggerated Mohicans, piercings and more extreme body modifications, as well as a style more marked by political doctrines.

During precisely the 1980s, deindustrialization in the Global North further contributed to the prevalence of DIY discourses in music, cultural practices and associated stylistics in a broader global sense. Similarly, the ease with which young people, and indeed later generations, can view fashion and other creative practices as viable occupations has also evolved globally, often in conjunction with a strongly articulated DIY code of cultural policy and practice. This evolution of DIY culture in a broader global sense is extremely significant, not least because of the demonstration of DIY as a language of action and intent most commonly adopted by an increasingly wide range of cultural producers and their audiences (Bennett & Guerra, 2019).

Once used as a means of denoting pockets of resistance to traditional forms of music and cultural production, DIY has now become synonymous with a broader ethos of lifestyle policy that unites people in networks of alternative and translocal cultural production. In the same period, the rapid emergence of digital creative technology, while not democratising the process of cultural production in a universal sense, given the cost implications involved in acquiring this technology for personal use, has made it easier for a growing number of people - including young people - to obtain the means to create and disseminate their own cultural products, particularly fashion. As this suggests, the combined effect of such socio-economic and technological changes has significant ramifications for the position and status of DIY as a cultural discourse and cultural practice in the post-industrial era. Articles, interviews and reviews dealing with the above mentioned themes are welcome. You are all invited to participate.

 Bibliographical references

Bennett, A.; Guerra, P. (2019). Underground Music Scenes and DIY Cultures. Oxford: Routledge.

Bennett, A. (2018). Conceptualising the relationship between youth, music and DIY careers: A critical overview. Cultural Sociology, doi:10.1177/1749975517750760.

Cartledge, Frank. Distress to Impress? Local Punk Fashion and Commodity Exchange. Roger, Sabin (Ed.). Punk Rock: So What? The Cultural Legacy of Punk (pp. 143–154). Londres: Routledge, 1999.

Guerra, P. (2017). Just can’t go to sleep: DIY cultures and alternative economies from the perspective of social theory. Portuguese Journal of Social Science, 16(3): 283–303.